Será que a criatividade já nasce pronta?

Será que a criatividade já nasce pronta?

Todo mundo conhece alguém que parece ter ideias brilhantes o tempo todo. Essas pessoas costumam receber o título de criativas, como se a criatividade fosse um dom reservado para poucos, mas será que ela realmente funciona assim? Algumas pessoas podem ter mais facilidade para pensar de forma criativa, mas isso não significa que criatividade seja exclusivamente um talento inato. Talvez, a melhor notícia para quem está entrando na comunicação seja justamente esta: criatividade não é um clube exclusivo. 

Criar não é tirar algo do vazio, é conectar referências, experiências, conhecimentos e vivências de uma forma nova. Até porque, antes de uma campanha chamar atenção, existe pesquisa. Antes de uma ideia surgir, existe observação. Antes de uma solução inovadora ser apresentada, existe um considerável processo de tentativas e erros. Por isso, talvez uma das maiores descobertas para um novo comunicador seja entender que criatividade não é um ponto de partida, ela é uma construção, como um mosaico personalizado de cada indivíduo. 

Cada filme assistido, livro lido, conversa compartilhada ou experiência vivida amplia esse mosaico de repertórios, já que nenhuma ideia nasce sozinha. Quando pensamos em algo novo, geralmente estamos reorganizando informações que já passaram por nós em algum momento. É por isso que pessoas diferentes encontram soluções distintas para o mesmo problema. Cada uma carrega uma bagagem única de referências, memórias e percepções sobre o mundo, e é exatamente isso que faz da criatividade algo tão individual.

Mas, se a criatividade depende de repertório, por que parece tão difícil ser criativo em uma época em que temos acesso a mais informação do que nunca? Em poucos minutos conseguimos assistir a uma palestra, acompanhar uma campanha premiada, conhecer tendências de diferentes lugares do mundo e consumir conteúdos produzidos por milhares de criadores. Em teoria, isso deveria tornar o processo criativo mais fácil, não é? Mas nem sempre acontece assim.

O excesso de referências pode acabar produzindo um efeito contrário. Quando estamos constantemente expostos às mesmas tendências, aos mesmos formatos e às mesmas fórmulas de sucesso, corremos o risco de confundir repertório com repetição. Em vez de criar algo novo, passamos a reproduzir aquilo que já vimos funcionar. Talvez um dos maiores desafios para quem busca criar hoje em dia não seja encontrar inspiração, mas filtrar e desviar de padrões que se repetem desenfreadamente. É preciso saber o que absorver, o que questionar e o que transformar em algo próprio.

No entanto, talvez essa busca constante por algo completamente original também seja parte do problema. Afinal, a criatividade não é sobre inventar algo do zero. Quando observamos as ideias que admiramos — sejam elas campanhas publicitárias, filmes, músicas ou grandes inovações —, percebemos que quase todas carregam influências e inspirações anteriores. O que as torna especiais não é a ausência de referências, mas o modo como elas são transformadas em algo inovador.

Então, ser criativo não significa criar algo que nunca existiu, significa enxergar possibilidades onde outras pessoas veem apenas informações desconectadas. É perceber relações entre coisas que, à primeira vista, não parecem ter ligação alguma. A criatividade não está apenas no que consumimos, mas na maneira como interpretamos e transformamos tudo isso em algo que nos represente. O repertório pode ser o primeiro passo, mas é o olhar de cada pessoa que dá forma ao resultado final. E justamente por não existir uma fórmula pronta para isso, o processo criativo pode parecer tão imprevisível e repleto de altos e baixos.

Os momentos de bloqueio criativo sempre estarão presentes. Eles fazem parte do processo e, normalmente, são apenas sinais de cansaço, excesso de demandas ou pressão por resultados imediatos. Afinal, em uma área que valoriza tanto a inovação, é fácil acreditar que precisamos ter respostas o tempo todo. Porém, criar também envolve dúvida, pausa e reflexão. Nem sempre a melhor ideia aparece quando estamos procurando por ela. Às vezes, ela surge justamente quando tiramos um tempo para respirar e damos espaço para que as conexões aconteçam. Basta pensar em quantas vezes uma solução aparece durante o banho, no ônibus ou enquanto fazemos algo completamente diferente da tarefa que estávamos tentando resolver.

Portanto, é visível que existe uma romantização muito grande em torno da criatividade. Costumamos imaginar que as melhores ideias surgem de repente, como um momento de inspiração, sem perceber todo o processo de pesquisa, reflexão e construção que acontece antes delas. Por isso, comunicadores aprendem com o tempo que nem toda ideia nasce pronta; muitas vezes ela começa como algo comum, quase sem graça, e vai ganhando forma ao longo do processo. Quem já participou de um brainstorming sabe disso. Normalmente a melhor ideia da reunião não é a primeira que aparece, mas surge, na verdade, depois de várias sugestões descartadas, comentários aparentemente irrelevantes e conexões que só fazem sentido quando olhamos para trás. 

Em conclusão, as melhores ideias não surgem porque alguém acordou inspirado em uma terça-feira qualquer; elas surgem porque houve repertório, tentativas, erros e persistência. Então, para quem está começando na comunicação, é comum acreditar que a criatividade aparece de forma espontânea. Eu mesma já acreditei que pessoas criativas possuíam uma capacidade especial de enxergar aquilo que eu não conseguia perceber. Com o tempo, porém, compreendi que a criatividade está muito mais relacionada à construção de repertório e à prática constante do que a um talento reservado para poucos. E essa talvez seja a melhor notícia de todas: ninguém precisa nascer criativo para criar coisas incríveis. Quanto mais ampliamos nosso repertório, questionamos padrões e nos permitimos experimentar, mais entendemos que a criatividade não é algo que encontramos, mas algo que construímos a partir de tudo aquilo que observamos e aprendemos ao longo do caminho.